Correndo atrás do sonho

Velocidade sempre foi uma palavra importante na vida de Raul Boesel. A carreira que nortearia grande parte de sua vida começou em Curitiba, sua cidade-natal, aos 16 anos de idade, época em que conheceu o kart – inclusive, o primeiro troféu veio ali mesmo, em 1973, na charmosa capital paranaense. O talento não demorou muito para se manifestar de vez: em 1979 participou do Campeonato Brasileiro de Stock Car, modalidade na qual foi eleito piloto revelação.

Stock Car | Crédito: Divulgação Raul Boesel

Três anos depois ele já estava na Fórmula 1, correndo primeiro pela March e depois pela Ligier, não sem antes acumular passagens vitoriosas pela Fórmula Ford 1600 e pela Fórmula 3 inglesa, terminando o campeonato na terceira colocação. Apaixonado declarado pela Fórmula Indy, disputou na categoria em 1985 e foi destaque desde o início, especialmente por ter registrado a volta mais rápida entre os estreantes nos treinos da prova 500 milhas de Indianápolis, a mais tradicional da corrida. No total, foram três poles e oito pódios.

A vida como piloto foi sinônimo de muitas outras conquistas, como o primeiro lugar no Mundial de Protótipos – o que o torna o único brasileiro até hoje a vencer a competição – e a segunda posição nas 24 Horas de Le Mans, principal prova do Campeonato Mundial de Endurance da FIA. Além dele, apenas Lucas Di Grassi trouxe o título para o Brasil.

Viagens? Sim, muitas

Apesar de as viagens serem algo corriqueiro na vida de um piloto de automobilismo, nem sempre é possível aproveitar a estada para, de fato, explorar cada um dos destinos, já que o espaço de tempo antes e após as corridas costuma ser curto. Mas, ainda assim, Boesel apresenta um passaporte recheado de carimbos e uma memória cheia de lembranças.

Roma – Itália | Crédito: Divulgação Raul Boesel

“É preciso considerar que, além das corridas, há testes e inúmeros eventos de promoção dos patrocinadores, o que significa que se passa mais tempo em aviões e hotéis do que na própria casa. Na minha época de Fórmula 1 ainda não existiam os circuitos na Ásia. As corridas eram mais concentradas na Europa, e a minha estreia foi na África do Sul. Passei também pelo Canadá, Japão e por muitos estados e cidades dos Estados Unidos e da Austrália. Embora tenhamos poucas oportunidades de curtir pra valer os destinos, posso dizer que a minha profissão me permitiu conhecer muito lugar bacana”, afirma.

Ao ser questionado sobre qual é o seu lugar preferido em todo o mundo, Boesel não hesita nem por um instante: Ibiza. Internacionalmente conhecida pelo calor intenso e pelas praias paradisíacas, sonho de consumo de muitos europeus durante o verão, e pela agitadíssima vida noturna, o que a torna um point e tanto entre os jovens, a verdade é que a badalada ilha espanhola tem espaço cativo no coração do corredor por um motivo mais que especial. “Foi ali, tendo o pôr do sol como pano de fundo, que celebrei o casamento com a minha esposa, Deborah, em 2013”, relembra.

Toca, Raul!

Enquanto o amor pela corrida foi, definitivamente, uma das grandes certezas da vida de Raul Boesel, outra paixão o seguia desde a juventude: a música eletrônica. Era esse o ritmo que o acompanhava em casa, na academia, todas as vezes em que viajava e até mesmo durante a carreira como piloto. “Certo dia acordei pensando em música e não no carro de corrida. Senti que a minha motivação não era mais a mesma e, para mim, aquele foi o sinal de que era hora de parar”.

O que ele fez dali em diante não é difícil de imaginar. Aceitou como desafio pessoal aprender a tocar, colocando em prática não a vocação, mas sim toda a admiração que sempre sentiu pela música. Sem medir esforços no que tange à dedicação, passou oito meses trancado em casa, tendo aulas particulares. “A minha maior preocupação seria a de alguém me vir tocar e dizer ‘O Raul como DJ é um ótimo piloto’”, brinca.

Crédito: Divulgação Raul Boesel

Mas assim como lidar com a alta velocidade era um desafio constante, iniciar uma nova carreira aos 48 anos também não foi tarefa fácil. “Mudei da água para o vinho e, hoje, acredito que consegui espaço e credibilidade. Desempenho esta atividade com o mesmo prazer, dedicação e profissionalismo que marcaram a minha carreira como piloto. Não é um simples hobby. Mais um pouco e completo 10 anos realizando este sonho”, comenta.

Ele resume bem a sua trajetória pelas pistas e no universo da música: “Como piloto, não há nada igual a uma corrida de Indianápolis; como amante de música eletrônica, Ibiza é incomparável e, como DJ, destaco o festival Tribe 2016, onde toquei por mais de três horas para um público de mais de 15 mil pessoas”.

Estados Unidos: o surgimento de um novo negócio

Há mais de 30 anos Boesel deixou o Brasil e foi morar no exterior, escolhendo os Estados Unidos como a sua nova casa. E foi em terras norte-americanas que, no ano passado, em companhia do amigo Wagner Zaratin, ajudou a formatar outro negócio, colocando em prática, pela primeira vez, o seu lado empreendedor. Em 29 de setembro de 2016 surgia a Chicken Bites, rede de restaurantes que oferece uma releitura da renomada coxinha brasileira.

Chicken Bites – Orlando – Flórida | Crédito: Divulgação Raul Boesel

“Após muita pesquisa o Wagner percebeu que o frango hoje representa o segundo alimento mais consumido nos Estados Unidos, enxergando aí uma oportunidade de ouro para apresentar aos americanos uma iguaria típica do Brasil por meio de uma marca simples e divertida. Meus olhos brilharam quando ele compartilhou essa ideia comigo”, diz.

Com um centro de distribuição com capacidade para produzir mais de 1 milhão de coxinhas por mês, quem chega no charmoso “take out”, como o lugar é chamado, pode acompanhar de perto todo o processo, aproveitar o ambiente descontraído para comer ali mesmo ou, se preferir, levar para comer em casa.

Localização é um ponto importante. Além de o estabelecimento estar no conhecido bairro de Metrowest, a dupla decidiu investir em outro tipo de ponto de venda: food trucks. “Sempre mudamos de endereço, mas o truck volta com frequência para lugares em que o sucesso é muito grande. A agenda pode ser acompanhada pelo site (www.chickenbites.net) e pelas nossas mídias sociais. Nossa decisão também levou em consideração a facilidade de mobilidade, permitindo que estejamos próximos dos americanos em eventos, escolas e igrejas, por exemplo. De quebra, agora ainda posso voltar a pilotar, só que agora o nosso food truck”, se diverte.

Chicken Bites – Orlando – Flórida | Crédito: Divulgação Raul Boesel

Há pouco mais de quatro meses no mercado, os sócios começam a colher os bons frutos do negócio. “A coxinha já está caindo no gosto dos gringos, temos mais de 20 interessados em franquias e licenciamentos e vendemos quase 50 mil unidades por mês. O céu é o limite”, revela, otimista.

Para Raul Boesel e Wagner Zaratin, uma frase resume tudo: “Como sonhar pequeno ou sonhar grande dá o mesmo trabalho, vamos apostar tudo onde for possível vencer”.

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